Ballet minúsculo do coração. Mente. Vereda
sem fim. Sem a tristeza não sei ser. Fecho-me. Opero-me
em sedução mútua com Deus. Os meus lábios leem poesia
como se estivessem a vigiar o Atlântico. Volto
sempre àquela vereda sem fim. Vejo-lhe
os espinhos nos arbustos rasos. Erva alta. Restos de lenha.
O rasto de um homem conhece-se na deriva de um homem.
Luzem tardios os faróis. Tumefazem as feras antigas. Risca.
E é até ao osso que riscam. A poesia excita a mão, incendeia a estrada.
Sem a tristeza não sei ser, já disse. Rodeio-me
de claustros. Nervo. Visões imaginárias. Vou contra a almofada com a lágrima
animal e múltipla da voz dizendo
O meu rosto varia tão pouco…
Fumo. Depuro o que é poético. Amo os nomes e
o teu pescoço parece pedir Beija-me.
Mas fujo. Juro. Gaguejo impreciso o perfume epiléptico da chuva. O amor
frágil diz versos na luz assíncrona do bater das enxadas dos camponeses. E eu.
Asa de longa exposição. Sabendo a perpétua expiação da luz. Antiga
exacta e louca eternamente louca. O oceano na sua forma de impossível pára. Vomita os afogados que mudos escutam o esófago prometido e nítido na brisa.
Por que faço eu?
Por que faço eu?
O janelão dos homens é a palavra surreal que dessedenta a tua ilusão. Nada além.
Estranhos Messias. Disposto o brado. Cardos, bardos? Ratos.
Uma lâmina nas emoções e os homens fogem pela histeria dentro.
Na linha de sombra a melodia adensa-se. Sou espora e tempo de verbo.
Ardendo
barafustando
contra a morte do canto do pássaro que um dia os elevou.
O caminho é um pensamento. Aparência. Exúvia.
Mãos que ecoam. Música perdida pelo buraco de Alice.
Quem será este, sem comédia?
[foto-composição minha]